segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulher

08 de Março. Dia da Mulher, aniversário de seu Flores, de Paulinho e do Lado de Cá! Há um ano inaugurei este espaço e o hábito de compartilhar com os que queiram um pouquinho do sinto, vejo e vivo. Sou grata aos que me acompanham, é com vocês que divido o prazer de escrever sobre as dores e delícias da minha aventura cotidiana. Nesse dia de força, deixo com vocês um texto que escrevi há alguns meses, mas que segue totalmente atual.

Engraçado como na vida tem fichas que demoram a cair. Às vezes coisas simples, coisas óbvias, coisas faladas, cantadas em prosa e verso. Estão lá todo o tempo e a gente não vê. Até que um dia… pluft: aparecem. 

A minha caída de ficha mais recente, que na verdade veio caindo em câmara lenta, é a descoberta do poder e da beleza de ser mulher.

Quando falo em poder não me refiro ao uso de artimanhas para conseguir o que se quer. Nunca fiz o tipo que se aproveita do charme feminino para conseguir as coisas (pelo menos conscientemente), ou que se diverte com truques de sedução. E nem tive aquela fase em que a adolescente descobre que tem em suas mãos o poder de comandar todo e qualquer marmanjo com um olhar ou um sorrisinho safado. Não me refiro a este tipo de poder, ainda que reconheça que o temos. 

A constatação que me maravilha no momento é a magia do feminino, é o acolhimento que só a mão de uma mulher é capaz de oferecer à outra, falo da produção de oxitocina que estimulamos umas nas outras, falo de vibrar numa mesma sintonia, de cumplicidade, de compreender pelo que passa a outra porque funcionamos num mesmo software, diferente daquele dos homens. Falo de compartilhar a sabedoria de ser mulher, de ter o dom da doação, da maternidade, do amor incondicional. Falo de compreender os limites físicos, de exaltar a sensibilidade, de acreditar nas intuições e na mãe natureza. Falo do poder da Deusa e da irmandade que nos fortalece sem perder a ternura.

No meu caminho tenho passado por mulheres que têm me dito muito sobre a mulher que sou e mais ainda sobre a que quero ser. E a força que recebo de todas elas é de uma sutileza, de uma “fineza tão fina”, mas tão fina, que só agora começo a perceber que nos encantos do universo feminino só acessam aqueles que têm alma de ouvir e coração de escutar.

Agradeço a cada uma de vocês por serem espelho e parte indispensável do meu aprendizado maior.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Jardim das Mudas Perambulantes

Já passa das 11 horas da manhã quando elas começam a aparecer. Saem todas por uma mesma porta. Sai uma, depois de alguns minutos outra, logo outra e assim seguem, numa frequência e ritmo que podem variar a cada dia. Mulheres. Creio que cerca de 25, ainda que nunca vêm ao jardim todas de uma vez. As idades são variadas... Imagino que dos 25 aos 60 anos. No inverno aparecem sempre bem agasalhadas, muitas encapuzadas e, por vezes, quase não posso ver os seus rostos.

Elas saem por aquela porta, sempre a mesma, e é pra lá que voltam terminado o passeio. O que chama a atenção nesse grupo de mulheres peculiares que visitam o jardim é que elas não falam. Ou melhor... Não se comunicam umas com as outras de maneira alguma. Não se olham, não gesticulam, não se tocam. Agem como se estivessem sozinhas. Sempre.

Essas mulheres são controladas por um gongo, que não consigo ver onde fica. Certamente estará além daquela porta. Aparecem e se vão quando ele soa. Uma vez pela manhã e outra ao fim da tarde. O curioso é que, muito embora não falem, não interajam e sejam controladas por algo que escapa meu entendimento, essas figuras não parecem tristes, amarguradas ou obrigadas a estarem ali. Na verdade, elas não demonstram nada. As faces sempre levam a mesma expressão de máscara neutra. Apenas no ritmo do caminhar comunicam alguma coisa: algumas caminham mais aceleradamente, como que fazendo exercício; outras simplesmente perambulam.

A extremidade direita do jardim é limitada por uma corda verde, para além da qual elas estão proibidas de ultrapassar. A corda as separa do contato com os homens, mas de onde observo não consigo vê-los. O que me supreende é que nos limites imediatos da corda não se vê ninguém, nem de um lado, nem do outro. Não sei se por medo ou respeito, as mudas não chegam nem olham para além da corda verde.

No jardim existe um circuito, aberto na grama já pisada por outras como elas. E é por este circuito que elas seguem... numa espécie de rito respeituoso às que ali estiveram no passado. A maior parte segue o circuito em sentido anti-horário. Vez por outra alguma, entediada, inverte o sentido da caminhada. Apesar da aparente sensação de que cada uma vive seu universo particular, cada transgressão que acontece no jardim claramente atinge às outras. Um dia uma delas parou num banco e deitou-se. Minutos depois todos os 4 bancos estavam ocupados com mulheres mudas deitadas. Se uma decide fazer algum exercício de alongamento (coisa, por sinal, que se repete muito), logo se vêem outras, em cantos distantes, repetindo gestos parecidos. Imagino que essas ações transgressoras devam agir nelas como um bocejo. Quando um faz na nossa frente, é inevitável repetir. 

Outro dia uma delas parou para observar o sol que já estava a ponto de se pôr. Perto dela (mas longe o suficiente pra manter os seus cículos pessoais de isolamento) logo se juntaram tantas outras. E ali permaneceream, numa imagem bonita de se ver, todas voltadas pro sol, contemplando o astro rei. Até que soou o gongo. Uma a uma, foram deixando o iminente pôr-do-dol para trás e, sem parecer lamentar a saída prematura, voltavam praquela porta de onde haviam saído minutos antes. Sempre a mesma porta. 

No dia seguinte a mesma dinâmica se repete. E assim por diante, num período de 10 dias. Os dias de sol decretam presença massiva das mudas no jardim. Nos dias de chuva a freqüência é menor, mas, ainda assim, podem ser vistas. Para algumas o passeio parece ser uma atividade de primeira necessidade: ir ao jardim é uma obrigação, nem que seja pra dar duas voltinhas no circuito e logo retornar praquela mesma porta. 

Reconheço que é o fim do ciclo no dia em que começo a ouvir vozes para além da porta. Muitas vozes. Falam todas ao mesmo tempo, ansiosas, incessantes. Dão a impressão de liberar palavras acumuladas por um longo período de silêncio compulsório. Neste dia as mudas se vão. Nenhuma delas retorna ao jardim, ainda que esteja brilhando um lindo sol e o céu esteja sem uma nuvenzinha sequer. Não sei se são elas as que falam, ou se são essas vozes que as espantam. O fato é que, no dia em que escuto as vozes é sinal de que não as verei mais. Até o próximo ciclo, quando novas mulheres assumirão o papel destas.

O Jardim das Mudas Perambulantes é efêmero e cíclico. Dura um período determinado, mas sempre se repete. Embora a porta misteriosa que o guarda siga aparentemente sendo a mesma, uma repetição é sempre completamente diferente da anterior. Por anos acompanho e me delicio com este jardim. Impermanente. Mutante. Com ele aprendo que este eu que observa também se renova junto com os ciclos das mudas que vêm e que vão. 

Anicca! Anicca!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

1 ano

Hoje se completa um ano da minha chegada em Barcelona. Ui! 

Há um ano, a esta hora, estava morrendo de frio na casa de Edu e João, me preparando pra dormir com um nórdico pela primeira vez (e não é desse tipo aí que você tá pensando, hein? É um edredom!), ainda confusa com o Jet lag e sem saber direito o que estava sentindo... Apenas sabia que era muita coisa de uma vez só. Na cabeça meia dúzia de idéias e convicções que dentro de pouquíssimo tempo se desmanchariam feito papel n’água, uma a uma.

Pois... Saí de Salvador com planos de agora estar voltando pra casa, como a ex-colega chilena de quem me despedirei no domingo. Sem dúvidas, ver Daniela ir de alguma forma mexe comigo. Me põe frente a frente com as minhas escolhas. Apesar da compreensão e do esforço de estar ao máximo no momento presente não deixo de ouvir, ao longe, aquelas vozeszinhas que ficam o tempo todo dando voltas: “E se... e se... e se...”. Mas tô aprendendo o truque de deixá-las ficarem roucas... Logo silenciam.

Quando um vai estudar fora algumas das frases que mais se escuta são: ”Um ano não é nada”, “Vai passar voando, você vai ver!”, “Quando você menos esperar, tá na hora de voltar...”.

Uma coisa é escutar, racionalizar, entender... a outra é viver. Insano. É esquisito ter registrado na própria pele as contraditórias sensações de ter a impressão de que cheguei há pouco mais de 3 meses e de, ao mesmo tempo, saber ter acumulado tanta experiência nova que não cabe em 1 simples ano... Psicologicamente acho que devo ter vivido uns 3.

Tanto que nem vou ousar começar a fazer um balanço de tudo o que me passou. Me deterei apenas em registrar algumas palavrinhas chave que marcam alguns dos aprendizados apenas começados nesse período:

Flexibilidade * Clareza * Paciência * Verdade * Impermanência * Contemplação * Equanimidade * Fé

E sabe do que mais? Pelo saldo que se esboça, sinto que ainda preciso de mais uns quantos anos psicológicos pra dar conta de outras tantas palavras. Muito trabalho a ser feito. Quanto isso vai levar em tempo cronológico? Não opino. Prefiro deixar ele se defina por si.

A saudade permanece.

Apita o juiz o início do segundo tempo. Que siga o baba.
 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Neu per tot arreu

Geeeente... esse fim de semana passei por umas cenas dignas de registro.

Tudo começou quando Vívian, meu porto brasileiro em Tarragona, foi convidada a tocar numa festa nos Pirineus e me chamou pra ir de acompanhante. “Festa num albergue láááá nos Pigmeus??” – brinquei – “Nem pensar!! Imagina se vou me meter num lugar que eu não possa voltar pra minha casinha quando encher o saco...”. No dia seguinte ela voltou a tocar no assunto, mas deu informação nova... O lance era passar o fim de semana nesse lugar que era um refúgio nas montanhas, num evento organizado por um grupo, com vários pequenos acontecimentos, dentre os quais já estava confirmada a presença da neve... Uhhhh... a história mudou de figura... a tabaroa aqui tava doida pra conhecer a neve. Nem precisou voltar a insistir no tema. Topei.

Pois bem... fui de carona com uma mulherada que já me deu o termômetro da coisa... só rolava catalão! No fim de semana estivemos na casa algo em torno de 30 a 35 pessoas, dentre as quais no máximo 5 não falavam a língua. A verdade é que já entendo bastante, mas a dose foi tão intensa que me surpeendi um momento pensando em catalão!!! Aixó mateix! Uff...

Bom, pra não me alongar muito vamos logo aos fatos legais:

- Na sexta de noite já tive a oportunidade de ver um pouco da neve, passeando nos arredores do albergue. Já fiquei toda besta, tocando nela pra sentir a textura.

- No sábado de manhã me convidaram pra um “passeio” numa montanha. “1h e meia de subida”, me disseram. Pensei nas trilhas da Chapada Diamantina e achei que dava pra encarar... Pois bem... Meire e Mateus vão saber bem do que estou falando: me senti exatamente como na ocasião em que nos levaram pra uma escalada no Pão-de-Açúcar. Ou seja... se soubesse o que me esperava provavelmente não tinha ido. O destino era o Pico da Galinha Pelada, com cerca de 2350m de altura. Velho!! Subir não era o problema... o que a anta aqui não tinha se dado conta era que ia subir na neve...e em várias consistências diferentes...aquela que afunda do pé até o joelho, aquela que desliza, aquela que você tem sair chutando pra fincar a ponta dos pés.... ao nosso redor passavam vários grupos super equipados com esquis e tudo mais... e nós... só na botina. Eu era deliberadamente a lesma do trio. Ia bem atrás e caindo o tempo todo. Até que me arranjaram uns pedaços de pau pra ver se eu me agüentava de pé... Me senti meio Guiodai-dai-daaaai!


A paisagem era essa feinha aí... mas o cansaço era tanto...que agora pelas fotos tô aproveitando mais...kkkk. Tinha horas que eu olhava pra baixo e via um despenhadeiro de neve... pra cima era um paredão... E agora José? Bola pra frente... tirei força foi da juba mesmo, que nem Sansão. Enquanto subia os trechos mais inclinados só ficava pensando... meu Deus...como vou descer isso??? Pois essa foi a melhor parte! Praticamos o que chamamos de “culing”, ou seja, foi à base do sky-bunda mesmo e de mais uma dúzia de quedas divertidas. Na volta, a bunda e os pés molhados e congelados foram uma diliça... imagine!

- Quando voltamos ao albergue estava quase tudo pronto pra minha primeira Calçotada!! Os calçots são um tipo especial de hortaliças que só se encontram na Catalunya. Essa foi a versão de brincadeira que um catalão me orientou pra explicar o que é quando me perguntassem... Mas a verdade é que os calçots são uma versão subdesenvolvida da cebola misturada com cebolinha... Bem... seja lá o que for, esse negócio, assado na brasa e melado numa salsa chamada romesco...uhhhh... é viciante. E reza a lenda que o negócio é comer se sujando todo... bem ao estilo lambuzento do catalão. Nessa época do ano pipocam calçotadas por toda Catalunya...é que nem caruru no mês de setembro...kkkk.


Obs.: Por falar em lambuzento... acho que da sexta ao domingo só eu e no máximo mais 3 pessoas tomamos banho.

- Ao acabar de comer a calçotada, uma surpresa nos esperava lá fora... caía neve!! Fininha, mas caía... a tabaroa fez a festa!

- À noite, numa tenda montada do lado de fora, música catalana de taberna, da melhor qualidade. Foi divertido. Olha aí um trechinho:


- Mais tarde foi a vez de Vívian com a bossa nova, mas não tem registro pq eu tava no chocalho e no backing vocal...kkkk. Ahh...cabe ressaltar que lá fora fazia uma lua cheia “que te cagas”.

- No dia seguinte me custou um pouco sair da cama... o corpo não respondia depois da escalada do dia anterior. Como íamos embora pela tarde, fizemos um passeio curto no povoado de Gósol, voltamos pra almoçar, sentimos que estava ainda mais frio e então... mais neve caiuuu!!! Só que dessa vez... não era fininha não! Era nevascaaaaaa... Em alguns minutos toda a paisagem embraqueceu. Veja o antes e o depois...
 


E olha a tabaroa aí como ficou:


Resultado: toca o povo a correr pros carros pra se mandar, porque se a neve piorasse ficava difícil sair de lá... Quando entramos no carro da nossa carona... Suprise! Não havia bateria! Depois de várias tentativas frustradas, empurradas de carro em meio à nevasca e outras bagaceiras mais, resolvemos voltar pro albergue e esperar pelo resgate da seguradora no dia seguinte. Aaahhhh... que chato!

Na segunda, caminhamos até povoado e ficamos de “semi-hóspedes” num restaurante por algumas horas até sermos finalmente resgatadas. As meninas eram muito bem humoradas e, embora estivessem no quarto dia sem tomar banho, eram boas companhias e nem cheiravam mal.

Ui... Depois da overdose cultural catalana, bom mesmo foi chegar em casa e ouvir Arnaldo Antunes. Tarragona já nem parecia tão fria. E meu desejo de conhecer a neve já estava mais que saciado. Aliás, até agora tenho neve até no... juízo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nós somos o mundo... somos as crianças....

Gente!!! Encontrei um videoclipe esses dias no youtube e pirei... É de uma música chamada "Chega de Mágoa", gravada em 1985, bem no espírito "We are the World", só que com artistas brasileiros. Fazia parte de uma campanha de arrecadação para ajudar as pessoas que estavam sofrendo com a seca no país. Lembro que meu tio Jorge tinha aquele disquinho 33rpm com ela e escutávamos nas festas de família... foi uma música que ficou na minha memória de infância e só recentemente me reencontrei com ela.
Fiquei imaginando os bastidores de um projeto desses...lidar com os egos de artistas e empresários..haha...será que hoje ainda seria possível uma cosa dessas??? Tenho lá minhas dúvidas...
Dá só um saque nesses cabelos e roupas. Como bem disse meu amigo Flipper, os anos 80 não perdoaram ninguém!! haha

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

G.H.1

"Todo momento de "falta de sentido" é exatamente a assustadora certeza de que ali há o sentido, e que não somente eu não alcanço, como não quero porque não tenho garantias"

(A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

De-sa-ce-le-raaan-doooo

Quem me conhece sabe do meu ritmo de vida aí em Salvador, sabe o quanto vivo ocupada, cheia de trabalhos, projetos, ensaios, idéias e sempre me metendo em mais e mais e cada vez mais coisas. Sempre inventando uma maneira de estar ocupada para depois me queixar da falta de tempo pra cuidar de mim, pra fazer nada, pra relaxar. Quantos de vocês se identificam com esse perfil? Aposto que muitos. Fiz isso desde sempre porque me ensinaram que tempo é dinheiro, que mente vazia é playground do chifrudo (lá ele!), que “já que você não tá fazendo nada, então faz isso aqui para mim…”. E o tempo de respirar, de me permitir sentir, de fazer o que der (ou não der) na telha nunca coube nessa agenda sempre repleta de coisas muito importantes, alguns assuntos inadiáveis e um par de oportunidades imperdíveis. Meu nível de organização da vida é tamanho, que até o que deveria ser prazer eu tendo a transformar em compromisso, no sentido mais pesado da palavra.  

Mas sabe que hoje me peguei sorrindo sozinha na rua? Me bateu a alegria de constatar o quanto é bom não precisar ser “alguém”, não me exigir compromisso, competência, cumprir com a palavra a qualquer custo. Minha recente descoberta é a leveza de simplesmente ser e viver as coisas como elas me chegam, buscando o aprendizado na imperfeição, o alívio no que me sufoca. E sabe o melhor? Me dei conta de que já podia ter começado a me sentir assim há muito tempo, seguindo todas as minhas atividades cotidianas, mas colocando em cada uma delas a medida de energia que lhe corresponde. Apenas o suficiente para cumpri-las, nem um pingo a mais. Descobri que compromisso não é sinônimo de stress, competência tem muito mais a ver com flexibilidade do que com fazer a coisa certa e que agenda lotada não mede valor de ninguém, muito pelo contrário... só me impediu até hoje de voltar os olhos pro que realmente importa. 

E pra você? O que realmente importa?

sábado, 19 de dezembro de 2009

Por que cagam tanto os espanhóis?

Olha, vocês me desculpem a grosseria, mas logo vão ver que não se trata do que estão pensando. Em tempos de Natal na Catalunya (e sobretudo em dias de limpeza hepática!), o tema “cagar” vira uma verdadeira obsessão para todos os lados.

Normalmente, no dia-a-dia, os espanhóis se cagam em tudo. Se estão de mau-humor se cagam no leite, no mar, na sua mãe, na sua família inteira (ou na própria), e ainda tem os mais hereges que resolvem chocar cagando na hóstia consagrada, na Virgem Maria ou em Deus. O nosso tradicional PQP e outras expressões típicas de explosão de nervos ou de simples desabafo, aqui viram um “me cago en la leche!”, “me cago en ti!” e por aí vai descendo a ladeira à medida que cresce a gravidade do assunto.

Além disso tb usam o verbo cagar para outros significados, como estragar alguma coisa, se acovardar, errar feio, ou para adjetivar uma coisa muito boa: “un coche que te cagas”.  E esses você encontra no dicionário da Academia Real de Letras! Tá certo que em português a gente também usa essa expresssão com alguns desses significados, mas o negócio aqui não fica só nisso…

No Natal da Catalunya, uma coisa que acho fantástica é que quase não se vê a figura do Papai Noel. Aqui eles levam muito mais à sério a tradição cristã da data do 25 de Dezembro como dia de nascimento de Jesus. E os presépios são super tradicionais. Vários tipos, inclusive com várias cenas, muitas delas de cotidianos campesinos. E é aí que entra a primeira bizarrice escatológica natalina: o Caganer, que é uma figurinha quase sempre presente nos presépios, que aparece em algum cantinho agachada cagando!!! Uma justificativa que dá a Wikipedia, que eu acho que é queixo para explicar essa cagada sem explicação, é que alguns sugerem que o ato de deixar fezes no solo representa uma fertilização deste (!!!). Me poupe! A coisa é tão séria que já se fazem caganers com carinhas de personalidades famosas local e mundialmente. Olha só quem encontrei cagando por aqui…. A pergunta é: fazendo merda ou fertilizando???



Seguindo com a caganeira… o dia de presentear aqui não é na Noite de Natal e sim na Noite de Reis (06/01), que é quando os Reis Magos visitam Jesus e lhe presenteiam. O que aqui acontece na noite de Natal é uma ceia com a família e, para as crianças, a brincadeira é uma outra esquisitice chamada Caga Tió, que é um pedaço de tronco com carinha e patinhas. Olha que simpático:



No dia da Imaculada Conceição, 08/12, os bichinhos são feitos ou comprados e as crianças, desde então até a noite de 24, o alimentam, põem uma mantinha para ele não ficar com frio, enfim, fazem dele seu Tamagoshi. Na noite de Natal os adultos dão às crianças bastões de madeiras, que devem ser aquecidos na cozinha ou em outro cômodo, para fazer o Tió cagar doces, balas, guloseimas em geral. Enquanto saem os guris, os adultos levantam a mantinha e escondem tudo embaixo do pobre do tronco sem que a criançada se dê conta. Quando retornam, começa a sessão tortura com a criaturinha que foi cuidada com tanto amor e interesse durante os 16 dias anteriores. Com os bastões as crianças judiam, espancam, torturam o coitado do Tió cantando:

Caga tió
ametlles i torró
(amêndoas e torrones)
no caguis arangades (não cagues arenques – um tipo de massa)
que són massa salades (que são muito salgadas)
caga torrons
(cague torrones)
que són més bons
(que são mais gostosos)
Caga tió
ametlles i torró
(amêndoas e torrones)
si no vols cagar
(se não queres cagar)
et donaré un cop de bastó
(te darei um golpe de bastão)
Caga tió! 



A criatura nem tem chance de escolher se vai cagar ou não. Apanha de qualquer jeito. Quando acaba a musiquinha se tira a mantinha e lá embaixo do Tió estão todas as guloseimas cagadas, que são afoitamente devoradas sem direito a uma assepsia prévia. Quando uma criança se dá conta que não é o tronquinho que caga e sim a mamãe que pôs o docinho ali, se produz uma decepção semelhante à descoberta que Papai Noel não existe. Que coisa, hein?


Perguntei a uma catalana o por quê dessa aficção no cocô. Ela deu de ombros e me disse: "É que somos escatológicos mesmo"! Bom… se ela diz… quem sou eu para discutir?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Brrrrrrrrr....

Ok, ok… muitos de vocês que estão aí no hemisfério sul vão me dizer que gostariam de estar aqui no meu lugar, mas na moral… passar frio é ruim demais. Ainda estamos no fim do Outono e as temperaturas já anunciam o que vem pela frente. Para uma baiana nascida e criada em uma cidade onde só existem duas estações (sol e chuva), vivenciar as mudanças de estações de verdade tem sido, no mínimo, interessante.

Cheguei num fim de inverno, vi o início da primavera – a cidade pouco a pouco se enchendo de flores, ficando colorida, o calorzinho se aproximando, os corações se aquecendo; passei pelo verão – calor infernal, até o limite do suportável, pessoas eufóricas e com pouca roupa (ou nenhuma, em algumas praias); conheci o outono – desses com folhinhas de vários tons de amarelo e marrom, princípio do recolhimento da cidade pós festas de fim de verão; e agora tô prestes a ver o que é inverno de verdade (inverno da Espanha, é claro).

Essas mudanças de temperatura, paisagem e humores trazem ao ano um colorido que até então desconhecia. Parece que fica mais curto quando é tão bem divididinho. A mim as mudanças que cada estação imprime no cotidiano, tanto comportamentais quanto psicológicas, dão a sensação de que o dia-a-dia corre menos risco de cair na rotina, de tornar-se entediante. Será? Ou é só uma visão romântica de estudante internacional de primeira viagem? O fato é que é tá tudo novo para mim: o rodízio das peças de roupa no armário (até março as camisetas podem ficar estocadas), as alterações na alimentação (adeus ao gazpacho e “veeeenha!” ao chocolate quente!!), as horas necessárias de sono (de 9 para lá!), o ritual antes de sair de casa (bota, casaco, outro casaco, luva, cachecol, gorro), o desespero na hora de sentar na privada gelada (veeelho… que horror!)…

O presentão que ganhei com a chegada do frio foi um espetáculo natural na minha janela, toda tarde. À hora do pôr-do-sol se pode escutar, em cada canto da cidade onde haja uma árvore, uma legião de passarinhos loucos gritando. De frente para janela do meu quarto tem uma dessas. Acho que eles fazem festa porque gostam do frio. Se encontram, batem o maior papo, combinam a coreografia e então começam a dançar. Desfrutem de um pouquinho del Baile de los Pajaritos desde mi ventana!








quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

<3 MPB <3

Hoje tive um amostra daquela sentimento nostálgico-patriota que ataca todo aquele se passa um tempo longe do seu país e tem a oportunidade de vê-lo de longe e compará-lo um monte de novas referências.

Conversando com um colega colombiano sobre amenidades surgiu o tema da imagen feminina vulgarizada e sei lá por quê (aliás… graças a um papo virtual inacreditável com JR!...kkk) me veio logo à mente imagens das bundas do É o Tchan! Como um bom latino, o cidadão ficou super interessado em conhecer o produto descrito. Acabada a janta corremos pro You Tube (ave You Tube!) e tive o desprazer de encontrar algumas pérolas medonhas, como um programa do Sílvio Santos no qual a banda e as dançarinas ensinavam a um grupo de crianças a dançar na boca da garrafa… sem comentários (pq senão acabo mudando o tema do post).

Bom… Depois de tamanho deserviço me senti obrigada a mostrar um pouquinho mais do que temos na música brasileira. Pegando o gancho do pagode, comecei a mostrá-lo algumas coisas de samba (tão famoso e adorado pelos europeus) e suas variações, até onde minhas limitações me permitiram, é claro. Passei por Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, Riachão, alguma coisa de escola de samba do Rio, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e umas porcarias aí, só para mostrar as diferenças. Depois, sem critério metodológico algum, apenas guiada pela emoção, acabei pulando para Elis, Bethânia, Gal, Doces Bárbaros, Chico, Tom, Vinícius, João Gilberto, Mutantes (sempre cantando tudo junto com muita intensidade...rsrsrs), coisas da Jovem Guarda, Marisa Monte, Maria Rita, Paralamas, Engenheiros, Legião, Calypso (kkk!), voltamos à Bahia com o arrocha (uhu!), depois Daniela Mercury, Brown, Ivete e acabamos no Chicletão! Um percurso para lá de inusitado, mas delicioso de ser exibido como novidade.

Isso tudo deve ter levado no máximo 1h e meia. Nesse tempo me vi tão feliz, tão orgulhosa de estar apresentando a nossa variedade musical… (até mesmo o lixo!). Principalmente pelas reações dele, que já conhecia alguma coisa da música brasileira, mas não tinha a dimensão dessa riqueza… Achou até que eu era grande conhecedora do tema e ficou impressionado quando falei que o que sei e me limitei a mostrar era muito básico.

Saí de lá feliz, cantarolando “Agnus Sei”, “Eu te Amo” e “Olhos nos olhos”, até que cheguei em casa. Sem pestanejar me pus a baixar músicas que me dei conta que ainda não tinha no computador e que considero fundamentais para a vida de qualquer um que descobre que a nossa música é a melhor do mundo.

Aaaaaaaah... eu acho!! Rs.