(Post dedicado aos coleguinhas da SEDUR e da extinta SEHAB)
Com uma boa porção de ingenuidade e outra bem maior de ignorância, desconhecia a existência anterior de uma cidade informal dentro de Barcelona. Informal, sim, como a que temos nas capitais brasileiras, com casas improvisadas, de madeira, papelão, sem água, esgoto, situações de cohabitação familiar, violência, baixa renda, enfim, nossas velhas conhecidas favelas, invasões…ops…ocupações!
Tivemos hoje uma visita guiada à exposição “Barracas – La ciudad informal”, no Museo de Historia de Barcelona. Para minha surpresa, através da exposição conheci uma cidade mais familiar que esta em que vivo hoje e que encanta diariamente a milhares de turistas. Uma cidade apelidada por uns, em 1923, de “Barracópolis”, habitada por gente que imigra do campo para tentar a vida na cidade industrial; gente que contraditoriamente se apinha em condições sub-humanas em busca uma vida melhor. Uma cidade que em 50 anos se multiplicou em quase 20 vezes (de 1.200 barracas de 1914 a cerca de 20.000 no início dos anos 60), e que nos 35 anos seguintes foi pulverizada, devastada, banida da Barcelona de Cerdà, abrindo espaço à espetaculosa Barcelona Olímpica.
De maneira alguma pretendo fazer uma apologia a miséria, tampouco romantizar o barraquismo – termo aqui utilizado. Mas o fato é que, frente ao fenônemo do inchaço urbano desordenado, a mentalidade do governo franquista, e depois do socialista, tinha a mesma característica asséptica que experimentamos no Brasil com o BNH: fazer verdadeiras cirurgias no tecido urbano e jogar bem longe os tumores malignos. E assim nascem as chamadas UVA´s (Unidades Vecinales de Asentamiento ou algo parecido), ou seja, áreas de reassentamento de famílias localizadas fora da cidade, nos povoados mais próximos, sem infra-estrutura urbana adequada e com todos os problemas que já conhecemos bem. Óbvio que a relidade sócio-econômica daqui é outra, idem a escala do problema. Até onde me consta, em sua grande maioria estas famílias carentes tinham alguma renda e, em parte, graças à luta dos movimentos sociais, a sua incorporação à cidade formal se alguma maneira se tornou possível, coisa que para nós ainda é uma piada. De qualquer maneira, os problemas sociais gerados nessas UVA´s viraram problema das prefeituras das cidades do entorno, onde se pode ver uma paisagem bem diferente.
Finalmente, onde antes se via a vergonha catalã, se fez possível a regeneração. Sem deixar rastros desse passado distante, se erigiram belíssimos cartões postais, como o inspirador Parc de Montjuïc e a linda e artificial Praia da Barceloneta.
Ainda hoje se vê em Barcelona algumas concentrações de população de baixa renda, em sua maioria de imigrantes e descendentes, objetos de intervenção da Llei de Barris (um tipo de FNHIS catalão). Mas até onde me contaram o barraquismo foi erradicado. O engraçado é constatar que todo esse processo de limpeza urbana se deu pouco a pouco à medida que a cidade ia sediando importantes eventos mundiais. O golpe final veio com as Olimpíadas de 92.
Agora, me diga se não te dá um desespero em pensar na dimensão do nosso problema e imaginar o que vai ser do Brasil na Copa de 2014?
Dica: Quase toda a exposição está disponível no site www.barraques.cat. Vale à pena dar uma conferida.
Há 8 horas